Governança em 2026: entre riscos, pessoas e estratégia

Janeiro costuma ser tratado como ponto de partida, mas, na prática, ele é consequência. As decisões que tomamos agora carregam os aprendizados do ciclo que se encerrou. Em um ano como 2025, marcado por deslocamentos, debates globais e amadurecimento institucional, falar de governança em janeiro é, antes de tudo, reconhecer o caminho percorrido antes de projetar o futuro.

O último ano exigiu mais do que técnica. Exigiu visão. A governança deixou de ser apenas um conjunto de regras e passou a se afirmar como lente estratégica, capaz de organizar incertezas, orientar escolhas e sustentar decisões em contextos complexos. Esse movimento ganhou força em um cenário global atravessado por instabilidades econômicas, tensões geopolíticas, emergência climática e transformações aceleradas no mundo do trabalho.

A experiência internacional ampliou esse entendimento. Na China, em cidades como Xangai, Shenzhen e Hangzhou, o futuro deixou de ser abstração. Ali, tecnologia, infraestrutura e estratégia caminham juntas, sustentadas por processos claros e decisões de longo prazo. O que mais impressiona não é apenas a escala, mas a mentalidade. Estruturas decisórias bem definidas fazem com que inovação, eficiência e sustentabilidade avancem de forma integrada.

Pouco depois, um deslocamento de outra natureza trouxe uma camada complementar de reflexão. No deserto do Atacama, o silêncio, o tempo expandido e a imensidão revelam algo essencial: estratégia também nasce da pausa. Modelos decisórios consistentes não se constroem apenas no ritmo da urgência, mas na capacidade de observar, refletir e escolher com consciência. Nem toda decisão precisa ser rápida, mas toda decisão precisa ser bem sustentada.

Esse contraste entre velocidade e contemplação ajuda a compreender uma das principais tendências para 2026, a maturidade decisória. O Global Risks Report 2024, do Fórum Econômico Mundial, aponta que os riscos climáticos, cibernéticos e sociais estão cada vez mais interligados e figuram entre os mais prováveis e impactantes da próxima década. Empresas que não desenvolvem estruturas capazes de integrar esses riscos tendem a reagir tarde demais.

A COP 30 realizada no Brasil reforçou esse alerta. Sustentabilidade deixou de ser discurso periférico e passou a influenciar diretamente o acesso a capital, reputação e competitividade. Governança climática, rastreabilidade e transparência entraram definitivamente na agenda dos conselhos, inclusive, Estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) indicam que empresas com práticas consolidadas de governança e gestão de riscos demonstram maior resiliência financeira e institucional em cenários de crise.

Outro eixo central para este novo é a gestão de pessoas. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT) indicam que transtornos como ansiedade e depressão relacionados ao trabalho geram perdas globais superiores a um trilhão de dólares por ano em produtividade. No Brasil, a Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT) aponta crescimento contínuo de afastamentos por transtornos mentais, hoje entre as principais causas de licenças previdenciárias.

Cada vez mais, o principal ativo das empresas é o humano. Ambientes adoecidos produzem decisões ruins, conflitos internos e rupturas silenciosas. Conselhos mais atentos passaram a incluir clima organizacional, modelos de liderança, escuta ativa e cultura ética como temas permanentes da agenda estratégica. Cuidar das pessoas tornou-se também uma forma objetiva de gestão de risco.

A tecnologia segue como vetor incontornável. A inteligência artificial avança rapidamente, mas seu impacto depende da forma como é conduzida. Relatórios da McKinsey e da PwC mostram que empresas que adotam inteligência artificial com critérios claros, ética e supervisão estratégica ampliam eficiência e reduzem riscos legais e reputacionais. Governar a tecnologia deixou de ser opção e passou a ser condição de sustentabilidade.

Nas empresas familiares, essas tendências se manifestam de maneira ainda mais sensível. Sucessão, conflitos de interesse e profissionalização continuam no centro do debate. O diferencial está na forma de conduzir essas transições. A nova geração busca propósito, inovação e participação real, enquanto isso, a governança se consolida como espaço legítimo para organizar este diálogo sem romper vínculos nem comprometer o legado.

Aliás, o agro brasileiro e mato-grossense também atravessa esse movimento desafiador: risco climático, reputação internacional e exigências de mercado passaram a impactar diretamente o negócio. Relatórios da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) indicam que estruturas decisórias sólidas serão fator determinante para competitividade global nos próximos anos. Estratégia sem base institucional tende a se esgotar rapidamente.

Completamos cinco anos de trajetória profissional no campo da governança, o que traz uma camada adicional de responsabilidade. A fase da consolidação exige menos improviso e mais método, menos volume e mais densidade. Se 2025 foi um ano de ampliar horizontes, 2026 se apresenta como o tempo de desenhar rotas que integrem inovação, sustentabilidade, pessoas e estratégia.

Governança não é sobre controlar o futuro, mas sobre criar condições para atravessá-lo com consistência, ética e visão de longo prazo. O novo ano não pede respostas prontas, mas boas perguntas. O conselho está preparado para riscos que não aparecem no balanço? A liderança sabe escutar antes de decidir? A tecnologia serve à estratégia ou apenas à urgência? Refletir sobre isso é o primeiro passo para transformar tendências em escolhas conscientes e duradouras.

 

Cristhiane Brandão é conselheira de Administração, Consultora em Governança para Empresas Familiares, Mentora de Negócios Familiares e  Vice-Coordenadora Geral do Núcleo Centro-Oeste do IBGC.

Sustentabilidade e legado: o futuro das empresas familiares

As empresas familiares nasceram de histórias, valores e propósitos que se confundem com a identidade de quem as criou. Foram erguidas com trabalho, confiança e visão de futuro. Mas o futuro, agora, exige uma nova leitura desse legado. Sustentabilidade deixou de ser apenas um conceito ligado ao meio ambiente ou à imagem institucional. É, hoje, uma questão de sobrevivência, continuidade e oportunidade.

Para as empresas familiares, compreender isso é decidir se o legado deixará marcas no tempo ou ficará preso ao passado. O debate sobre sustentabilidade ganha força no Brasil neste mês com a realização da COP30, em Belém, que reúne lideranças de todo o mundo para discutir as urgências climáticas e econômicas do planeta. A presença do país como anfitrião reforça um chamado: não há mais espaço para modelos empresariais que ignorem o impacto de suas ações.

Esse debate inclui as empresas familiares, que representam mais de 90% dos negócios brasileiros e são responsáveis por grande parte da geração de empregos e da movimentação da economia. De acordo com levantamento da Amcham Brasil, 71% das empresas brasileiras já adotam práticas ESG, um crescimento expressivo em relação ao ano anterior. Outro estudo, da OCDE, mostra que 70% das companhias listadas no país reconhecem a mudança climática como um risco financeiro relevante.

A sustentabilidade, portanto, deixou de ser uma agenda periférica para ocupar o centro da gestão estratégica, da governança e da longevidade dos negócios. Em se tratando de empresas familiares, essa é uma mudança de paradigma. A pauta ambiental, social e de governança entra na mesma mesa em que se discute sucessão, valores e propósito. Falar sobre sustentabilidade é, na prática, falar sobre o futuro da família.

Quando uma família empresária decide incluir metas ambientais, revisar práticas trabalhistas, mapear impactos e promover a transparência, está, na verdade, garantindo que sua história siga relevante nas próximas gerações. Alguns exemplos brasileiros mostram que isso é possível. A Amaggi, fundada pela família Maggi em Mato Grosso, tornou-se uma das maiores do agronegócio mundial sem se afastar de suas raízes familiares. Sob a liderança da nova geração, investe em rastreabilidade da cadeia, conservação de biomas e desenvolvimento das comunidades onde atua, mostrando que tradição e inovação podem caminhar juntas com propósito.

A Cia. Hering, uma das mais tradicionais empresas familiares brasileiras, também vem se reposicionando de forma inequívoca ao adotar práticas de moda sustentável e conquistar certificações que atestam seu compromisso ambiental e social. Desde 2012, com o programa “Moda Sustentável”, a empresa monitora fornecedores, reduz consumo de água e resíduos, investe em algodão orgânico e energia renovável. A nova geração familiar, que hoje participa ativamente da gestão, tem impulsionado essa transformação, colocando a agenda de sustentabilidade no centro da sucessão e reforçando que legado e inovação caminham juntos.

O exemplo dessas trajetórias ensina que sustentabilidade e tradição não se opõem; elas, na verdade, se fortalecem. A solidez dos valores familiares deve ser o alicerce para uma nova etapa de crescimento e conexão com o mundo. Sustentabilidade é estratégia, é gestão de risco e é também a oportunidade de construir um legado mais humano, coerente e inspirador. Quando a governança familiar se abre para esse diálogo, ela deixa de olhar apenas para o que se quer preservar e passa a pensar também no que se quer transformar.

A pergunta que se impõe, portanto, é simples e profunda: o que a sua empresa familiar quer deixar para as próximas gerações? Um negócio apenas rentável ou uma história que inspire e perdure? A resposta talvez esteja em algo que sempre guiou os empreendedores familiares, a capacidade de ler os sinais do tempo e agir com propósito.

Sustentabilidade não é o oposto do lucro. É a nova forma de garantir que ele continue existindo. E, neste momento em que o Brasil sedia a COP30 e o mundo volta os olhos para o impacto das decisões locais sobre o planeta, as empresas familiares têm a chance de mostrar que o legado que constroem pode, de fato, transformar-se em um legado para o futuro.

 

Cristhiane Brandão, Conselheira de Administração, Consultora em Governança para Empresas Familiares, Mentora de Negócios Familiares e  Vice-Coordenadora Geral do Núcleo Centro-Oeste do IBGC.

Governança no Agro: pilar para a segurança alimentar e climática

Participar do Global Agribusiness Festival (GAFFFF) 2025, um megaevento internacional que reuniu os principais segmentos do agronegócio, foi uma experiência inesquecível. Além de fortalecer conexões e abrir espaço para debates estratégicos, reforçou uma convicção que já tínhamos: o protagonismo do agronegócio brasileiro como pilar mundial da segurança alimentar e climática.

Os números apresentados no evento são no mínimo interessantes. O mundo terá 2,4 bilhões de habitantes a mais até 2050, saltando dos atuais 6,8 bilhões para 9,2 bilhões. Paralelamente, a expectativa de vida aumentará para 75 anos. Surge então um impasse: como atender a demanda crescente por alimentos sem comprometer o equilíbrio socioambiental?

A resposta está na produtividade com responsabilidade e na governança, que sustenta todo esse processo. Nesse cenário, o Brasil se destaca como um dos poucos países capazes de garantir alimentos em grande volume e alta qualidade, sem precisar expandir suas fronteiras agrícolas.

Durante o evento, a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) apresentou soluções inovadoras para atender ao aumento do consumo mundial de carne bovina, especialmente na América do Norte e na Ásia. Entre elas estão os sistemas integrados de Lavoura-Pecuária (ILP) e Lavoura-Floresta (ILF), que permitem até três safras por ano em algumas regiões, com expectativa de alcançar 35 milhões de hectares integrados até 2030.

Esse modelo promove benefícios expressivos, tais como eficiência no uso da terra aumentada em até 6 vezes; qualidade do solo melhorada em 74%; e fortalecimento da biodiversidade, com ganhos de 41%. Além disso, o Plano ABC+, do governo federal, projeta uma mitigação de 1,1 bilhão de toneladas de CO₂ equivalente até 2030 com ações que incluem a recuperação de 30 milhões de hectares de pastagens degradadas; expansão de florestas plantadas; e o uso de bioinsumos e manejo sustentável de resíduos.

Atualmente, o rebanho bovino brasileiro soma 238 milhões de cabeças, com 65 milhões de matrizes aptas à reprodução. No entanto, 53% dessas matrizes ainda não utilizam genética de qualidade, representando um potencial inexplorado. O avanço do setor exige planejamento estratégico, inovação e rastreabilidade, garantindo que o agronegócio brasileiro cumpra seu papel sem comprometer recursos naturais.

Neste contexto, a governança se torna essencial, já que organiza decisões, conecta sustentabilidade à visão empresarial e garante coerência entre discurso e ação. No mês em que celebramos o Dia Mundial do Meio Ambiente, é fundamental reforçar: sem governança, não há transição justa nem prosperidade duradoura.

O impacto das mudanças climáticas sobre a economia é real e urgente. Reportagens recentes destacam como eventos extremos estão afetando o país. A Folha de S. Paulo (setembro de 2024) destacou: “Crise climática afeta logística do país, e empresas relatam prejuízo milionário”; já a Fecomércio-SP (abril de 2025): “Seis em cada dez empresas paulistas sentem impactos climáticos.”

A seca severa de 2024 foi a pior desde 1982, afetando 60% das cidades do estado de São Paulo. Em outubro do mesmo ano, chuvas intensas deixaram a capital paulista sem energia por vários dias, resultando em um prejuízo de R$ 2 bilhões para as empresas.
Mato Grosso também enfrenta desafios. No Pantanal, a estiagem e a baixa umidade ampliam o risco de incêndios florestais, afetando biodiversidade, economia e qualidade de vida da população. Cuiabá, por sua vez, registrou temperaturas recordes de 43°C em setembro de 2024, figurando entre as cidades mais quentes do mundo.

A pesquisadora Ana Paula Paes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), alertou: “Se nada for feito, entre 2030 e 2050, algumas regiões do Centro-Oeste podem se tornar inabitáveis. O clima está se deteriorando rapidamente, criando condições extremas.”

O agravamento dos eventos climáticos reforça que esta não é mais uma pauta opcional, mas uma exigência de sobrevivência econômica, social e ambiental. Os riscos concretos para os negócios incluem: perdas operacionais e ruptura de cadeias logísticas; pressão regulatória e impactos na reputação corporativa.

Neste cenário, empresas familiares desempenham um papel estratégico. Seu propósito, legado e cultura empresarial podem ser direcionados para um impacto positivo. Quando uma família empresária alinha seu legado à sustentabilidade, o negócio cresce e fortalece o ambiente ao redor, construindo um futuro próspero para todos!

Cristhiane Brandão, Conselheira de Administração, Consultora em Governança para Empresas Familiares e Vice-Coordenadora Geral do Núcleo Centro-Oeste do IBGC.

Como crescer sendo sustentável?

As empresas de modo geral chegam ao fim do ano prontas para apresentar um balanço positivo de crescimento. Talvez você esteja fazendo isso neste momento, já que a atual sociedade é movida por uma lógica de crescimento infinito que necessita de números cada vez expressivos para validar o sucesso.

 

Deste modo, compartilhamos – no individual e no coletivo – dessa sensação de insatisfação constante que pode inclusive gerar adoecimento. Convido você a repensar se este modelo amplamente defendido e difundido de crescimento, desde a década de 1960, realmente é o que melhor atende à sociedade e ao planeta onde vivemos?

 

Ressignifiquei recentemente o conceito ESG (Environmental, Social and Governance) durante uma aula num curso do IBGC incorporando uma nova ótica ao pilar social, que precisa de um olhar estratégico que vá além da filantropia e inclua fornecedores, clientes, funcionários e a comunidade afetada pela empresa. O caso das Americanas serve para ilustrar a importância dessa “corresponsabilidade”.

 

O crescimento sustentável tem similaridade com a ideia de economia regenerativa debatida pela professora da Universidade de Oxford, Kate Raworth, autora do livro “Doughnut Economics: Seven Ways to Think Like a 21st-Century Economist” (Economia Rosquinha: Sete Formas de Pensar como um Economista do Século XXI), que utiliza o conceito “rosquinha” para ilustrar a importância de equilibrar as necessidades humanas essenciais sem ultrapassar os limites do planeta.

 

Foi importante conhecer a abordagem da Kate Raworth, que defende uma economia holística e sustentável que leve em consideração não apenas o crescimento econômico, como o bem-estar social e a saúde ambiental. Também como partes dos estudos que fiz como Conselheira, numa incursão a Espanha – Barcelona, onde pude ver inclusive visitando empresas locais, que inovação e ESG podem caminhar muito bem juntos.

 

Como agente de governança, tenho multiplicado esse conhecimento e experiências com minha equipe, clientes e parceiros, ajudando a ampliar a perspectiva sobre a necessidade certeira de “ter que crescer para sempre” em ritmo acelerado.

 

Como ficaria o tempo de “maturação” durante esses ciclos de expansão? A economista explica que, ao seguir essa lógica infinita de crescimento, a atual sociedade conseguiu desequilibrar sistemas habitáveis há 11 mil anos. “Sim, crescimento é fonte de vida saudável, mas nada na natureza nada cresce para sempre, o que acontece é que as coisas crescem e depois amadurecem, só assim podem prosperar por longo período”.

 

Saber fazer uso das novas tecnologias disponíveis e ampliar a criatividade são caminhos fundamentais para se chegar a novas respostas sobre o futuro.  Nesse sentido, as empresas familiares precisam dedicar parte do seu tempo para a definição estratégica que enfatize ações de sustentabilidade e inovação, mas na perspectiva observada a partir da obra do arquiteto Antoni Gaudí.

 

Quando visitamos o Templo Expiatório da Sagrada Família, que representa a identidade da capital catalã, na Espanha, somos apresentados a uma obra-prima que ficou inacabada antes da morte de Gaudí e que levou à reflexão sobre este conceito de que nós, seres humanos, “somos obras inacabadas”. Portanto, ao trabalhar a Governança Familiar, é imprescindível incorporar a necessidade de busca permanente de equilíbrio “da rosquinha”, só assim prosperam os negócios, a família e a sociedade.

 

Voltando ao nosso balanço, 2023 foi um ano importante em que conseguimos avançar na consolidação da Governança Familiar e Corporativa entre as empresas mato-grossenses, o que contou com a realização do 1º Fórum de Governança para Empresas Familiares do IBGC – com apoio da Fiemt – e encontros temáticos da Brandão Governança, ambos com membros de famílias empresárias e/ou funcionários chave. A proposta é justamente essa, ajudar empresas familiares a se tornarem ESG, movimento que significa viver essa jornada única e transformadora que visa fortalecer a economia e construir um mundo melhor!  Que 2024 chegue com mais consciência da nossa parte…

 

Cristhiane Brandão, Conselheira de Administração, Consultora em Governança para Empresas Familiares e Coordenadora do Capítulo Brasília/Centro Oeste do IBGC.

 

Ética e propósito são destaques do novo Código das Melhores Práticas de Governança

Recentemente, tivemos uma importante atualização do Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa que contou com benchmarking internacional de outros 15 códigos ao redor do mundo, bem como etapas de audiência restrita e pública e sessões especiais no Congresso IBGC do ano passado.

 

Hoje, o Código adotado é principiológico, ou seja, traz um conjunto de princípios que regem a atividade de governança, além de condensar um documento moderno e inspirador. Em relação à 5ª edição (2015), a atual versão destaca a ética e o propósito como fundamentos.

 

Outros pontos importantes revisados se referem a uma nova definição de governança e ao aperfeiçoamento de seus princípios que passam a ser: integridade (novo princípio); transparência, equidade, responsabilização (antes prestação de contas) e sustentabilidade (antes responsabilidade corporativa).

 

Como representante do Capítulo Brasília Centro-Oeste, acompanhei o processo de atualização e posso afirmar que a nova edição busca se aproximar ainda mais de diferentes organizações, de acordo com a maturidade em relação à governança, tipo de organização, arcabouço regulatório aplicável, dentre outros aspectos, valendo para todos os stakeholders e não só para investidores e acionistas.

 

Também se vislumbrou que seja um Código ‘inclusivo’ para que se aproxime de diferentes organizações, a exemplo de associações, cooperativas e startups. Já na Governança Familiar, os códigos têm importantes princípios para nortear os negócios da família e dos sócios.

 

Quero reforçar alguns pontos que considero importantes, entre eles, a integridade:  Como empresa familiar como temos difundido a cultura ética? Como nossas decisões têm sido tomadas? Como a influência de conflitos de interesses tem sido controlada ao que é melhor para o negócio e para a família? O que é melhor para mim? Como temos sido coerentes com nossos discursos e ações? Temos sido leais à empresa e ao negócio? Como temos cuidado das partes interessadas (sócios, comunidade, funcionários, fornecedores)?

 

Sobre a transparência, ela favorece a confiança e melhora o relacionamento com todas as partes interessadas. Então, a reflexão é sobre como temos disponibilizado informações verdadeiras, tempestivas, coerentes, claras e relevantes? Vamos além da situação econômico-financeira? Como questões ambientais, sociais e de governança (sucessão, riscos, futuro do negócio) estão sendo construídas e disseminadas?

 

Na equidade, temos tratado de maneira justa todos os sócios e demais partes interessadas? Conhecemos direitos, deveres, necessidades, expectativas e interesses? Escutamos? Informamos? Quais os rituais e instrumentos de apoio e os meios para que isso aconteça? Vamos além: Como promover justiça, respeito, diversidade, inclusão, pluralismo sem a equidade?

 

A responsabilização vem nos indagar sobre diligência e independência, sobre assumir as consequências (riscos e impactos) e gerar valor a longo prazo. Aqui, o principal aspecto em sociedades em geral e, especialmente nas empresas familiares, é a prestação de contas, pois isso implica em se submeter, em ser avaliado e responsabilizado. É como uma metáfora de que o jogo da vida real é para valer e tem consequências…

 

Para fechar, a sustentabilidade visa fortalecer o protagonismo e a responsabilidade perante a sociedade. Temos planejado de forma a perenizar o negócio familiar? Estamos criando que tipo de impactos e a quem? Como podemos mitigar isso e transformar nossa relação com a sociedade e a natureza?

 

Infelizmente, nos últimos dois anos, algumas empresas têm demonstrado estar na contramão de tudo que buscamos, entre elas, mais recentemente a 123 Milhas gerou prejuízos a milhares de brasileiros que perderam não só o dinheiro investido, mas o sonho adquirido com pacotes de viagens. Toda empresa tem responsabilidades que vão além do próprio lucro, estamos preparados para lidar com isso? Compreendemos que a relação de interdependência é soberana? E que o modelo de crescimento a qualquer custo na verdade tem um grande custo? É justamente nesse ponto que é importante resgatar o propósito das organizações…

 

Cristhiane Brandão, Conselheira de Administração, Consultora em Governança para Empresas Familiares e Coordenadora do Capítulo Brasília/Centro Oeste do IBGC

“Negócios verdes” fortalecem legado familiar

“Negócios verdes” fortalecem legado familiar

Nas duas últimas décadas, temos observado uma crescente preocupação mundial com o tema sustentabilidade. A ‘economia verde’ surgiu nesse contexto como uma alternativa promissora principalmente para empresas familiares que desejam prosperar e ao mesmo tempo contribuir com a conservação ambiental.

Dentre as 100 empresas mais sustentáveis do mundo (Relatório Corporate Knights 2022), o Banco do Brasil se destaca, por exemplo, pelo uso pioneiro de energia solar. Em Minas Gerais, foi construída uma usina capaz de gerar 14 GWh para abastecer 100 agências do banco, uma economia de R$ 80 milhões em 12 anos.

Outra empresa que aparece na lista é a Natura que possui 80% de seus produtos de origem vegetal e a matéria-prima retirada da Amazônia. Ao invés de utilizar polietileno convencional em suas fórmulas, usa polietileno verde feito à base de cana-de-açúcar o que reduz os impactos ambientais. Além disso, os novos produtos visam reaproveitar garrafas PET, diminuir a produção de papel e de plástico.

Sei que você pode estar pensando que não tem como se comparar às grandes empresas como Banco do Brasil ou Natura, que dispõem de conhecimento e recursos para fazer os investimentos necessários para implementar todas essas mudanças positivas para o planeta. Mas quero deixar um convite: vamos encarar a “economia verde” como uma oportunidade de inovar e se diferenciar no mercado?

Um exemplo positivo vem de Mato Grosso, a Cervejaria Louvada acaba de celebrar a conquista do Certificado Lixo Zero, demonstrando seu compromisso em reduzir resíduos ao máximo e a adoção de práticas sustentáveis em todas etapas de produção. O conceito de lixo zero “é uma meta ética, econômica, eficiente e visionária, para orientar as pessoas a mudar seus estilos de vida e práticas para emular ciclos naturais sustentáveis, onde todos os materiais descartados são projetados para se tornarem recursos para outros usarem”, diz o Instituto Lixo Zero Brasil (ILZB), que representa no Brasil a ZWIA – Zero Waste International Alliance.

Recentemente, participei de um evento promovido pelo Capitalismo Consciente, onde a Diretora Administrativa do Grupo Morena, justamente compartilhou entre tantos assuntos e experiências como a empresa avançou na educação e promoção do tratamento do lixo junto com os funcionários das propriedades do grupo situadas em Tangará da Serra e Campo Novo dos Parecis (MT). Dulce afirmou categoricamente “a educação é o único veículo que transforma as pessoas de dentro para fora.”

Independente do tamanho da sua empresa, é possível desenvolver novos produtos e serviços sustentáveis, adentrando mercados ainda pouco explorados e/ou encontrar novas formas de agregar valor aos seus produtos. Além disso, a eficiência energética e a redução de desperdício resultarão em uma economia de custos operacionais, o que certamente vai melhorar a rentabilidade e a competitividade da sua empresa.

Sustentabilidade não é uma pauta do futuro, por isso se faz necessário centrar esforços e investimentos em dois itens principais: novas tecnologias e treinamento de funcionários. Talvez você encontre resistência interna, sobretudo se a empresa estiver acostumada a operar o negócio de maneira tradicional. Nessa situação, a alta administração precisa ter um compromisso muito claro e forte em relação à agenda socioambiental.

A economia verde é um conceito adotado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) desde 2008. Segundo o órgão da ONU, significa uma economia que busca garantir a igualdade social e o bem-estar da humanidade aliada à diminuição dos problemas ecológicos e ambientais. Entre as características do empreendedorismo verde estão:

Baixa emissão de carbono e demais gases do efeito estufa, diminuição dos demais efeitos de impacto climático, eficiência na utilização de recursos naturais, inclusão social, reciclagem e reutilização de bens, uso de energias limpas e renováveis, valorização da biodiversidade presente nos ecossistemas, consumo consciente, adoção de práticas mais sustentáveis nos processos produtivos, universalização do saneamento básico e cuidado com os recursos hídricos (água).

Quando vivemos o legado, nos preocupamos com o que vamos deixar, entregar melhor para quem está por vir. Agir no presente, pensando no futuro. “Uma jornada consciente começa por líderes que decidem tornar seus negócios melhores para o mundo”, essa frase do Capitalismo Consciente nos chama a responsabilidade. Como sua consciência social está impactando em sua família, em sua empresa, em seu entorno?

Cristhiane Brandão, Conselheira de Administração, Consultora em Governança para Empresas Familiares e Coordenadora do Capítulo Brasília/Centro Oeste do IBGC.

 

Governança é bússola para longevidade das empresas

O filósofo grego Epicuro ensinava que “os grandes navegadores devem sua reputação aos temporais e tempestades”. Epicuro nos traz imediatamente ao grande momento que temos vivenciado nas empresas e que remete a Governança, que se traduz num conjunto de princípios, regras, estruturas e processos, que norteiam a perpetuação das empresas.

A Governança, independente do cenário, atua para promover sustentabilidade do negócio, por meio de boas práticas que visem a geração de valor (além do financeiro). Nas empresas familiares, algumas peculiaridades da Governança servem para minimizar conflitos entre os seus membros; também permite distinguir problemas da família das questões empresariais e não levar esse conteúdo para dentro da empresa, e vice-versa.

Diante da importância que ela exerce, afinal, o que é a tal Governança Corporativa? Na 6ª edição do Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa do IBGC (em processo de revisão), define-se:

“Governança Corporativa como um o sistema formado por princípios, regras, estruturas e processos pelo qual as organizações são dirigidas e monitoradas, com vistas à geração de valor sustentável no longo prazo para a organização, seus sócios e a sociedade em geral. Esse sistema baliza a atuação dos agentes de governança e suas relações com as demais partes interessadas. Será bem-sucedido se amparado no propósito, valores e cultura da organização e na busca pelo equilíbrio entre as demandas de todas as partes interessadas e os impactos da organização para a sociedade em geral e o meio ambiente”.

Dirigir para gerar valor sustentável no longo prazo, implica em olhar mais para o futuro, para as grandes questões do planeta, para o propósito que se deseja realizar, para o legado que se deseja deixar. Implica em olhar para o lado, para baixo, e verificar quem está e pode estar junto, quem é impactado e de que forma possa haver uma transformação coletiva vai além do olhar puramente financeiro, de retorno do capital.

Monitorar para gerar valor é algo que está bem em voga na Governança, quais indicadores traduzem a realidade ESG dos negócios? Qual a melhor forma de metrificar práticas com horizonte de longo prazo? Como remunerar executivos e todo corpo operacional do negócio no presente, valorizando as ações que semeiam o futuro? Como o meu negócio pode ajudar minha cidade no futuro? Quais as grandes transformações sociais que deveremos nos preparar para evoluirmos juntos? Como preparar os sucessores para esse futuro? São tantas possibilidades, precisamos começar!

Começar de verdade, inteiros, integrados no todo. Inclusive a integridade, que ganha muita ênfase nessa era pós pandêmica, nos convidando a atuar além da conformidade com as leis e regulamentos, “os agentes de governança devem promover o contínuo aprimoramento da ética na organização, por meio da prática inequívoca e visível da coerência entre pensamento, discurso e ação, da lealdade à organização e da imparcialidade, evitando decisões sob a influência de conflitos de interesse”.

Recentemente, o caso das empresas Americanas nos fez repensar de maneira coletiva sobre a importância da implantação e do fortalecimento da Governança. A perenidade de uma empresa também traz benefícios à sociedade, entre eles, a geração direta e indireta de emprego e renda às famílias (empregados e fornecedores), recolhimento de impostos e fomento da economia nos municípios, pois é um atrativo importante.

Isso significa que a crise ou a falência de uma empresa não prejudica apenas seus proprietários e acionistas, estende-se à toda cadeia produtiva e à sociedade em geral, ou stakeholders (partes interessadas), provocando inclusive um sentimento de insegurança, medo e pessimismo. Como atrair novos investimentos em um cenário como este? O caso da Livraria Cultura com seu pedido de falência, tem trazido inúmeras manifestações de consumidores e usuários que vivem o “luto” do fim do negócio impacto social.

Também, nesse sentido, é fundamental observar que a maneira como um negócio é administrado pode gerar consequências trágicas, a exemplo do que aconteceu na Boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, há dez anos. Recentemente assisti o documentário que narra os fatos e é impossível não sentir indignação, não só com a sensação de impunidade do caso, mas, sobretudo com a sucessão de equívocos do ponto de vista de gestão (pública e privada) que culminaram na morte de 242 jovens.

Acredito que quem não recorda o passado está condenado a repeti-lo. No entanto, mais do que conhecer e estudar o que já passou, é importante trabalhar em prol de não repetir erros antigos. E a implantação da Governança Corporativa e Familiar serve exatamente a este propósito: promover a longevidade do negócio e resgatar o que há de melhor na família. Simples não é, mas o desafio está colocado! Vamos juntos!

Cristhiane Brandão, Conselheira de Administração, Consultora em Governança para Empresas Familiares e Coordenadora do Capítulo Brasília/Centro Oeste do IBGC

Qual a responsabilidade da sua empresa com o futuro do planeta?

Nós celebramos neste mês, no dia 05 de junho, o Dia Mundial do Meio Ambiente. Estive pensando muito sobre como fazer essa expansão de consciência sobre a responsabilidade que temos com o futuro do planeta e como cada um de nós e as nossas empresas (em especial as familiares) podemos fazer a diferença.

 

Afinal, como nos conectar aos grandes temas mundiais? Penso que a resposta seja simples, embora nada fácil, implantando a Agenda 2030 com seus 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) aliada às práticas ESG “Environmental, Social and Governance” (Ambiental, Social e Governança).

 

Mente em Foco, Elas Lideram 2030, +Água, Salário Digno, Raça é Prioridade, Ambição Net Zero e Transparência 100%. São dezenas de temas que compõem o mais recente convite para ampliar a Agenda 2030, que foi chamado de Ambição 2030, e que busca ampliar o engajamento do setor privado na implantação dos ODS.

 

São desafios para os quais precisamos olhar para desenvolver soluções que abarquem os desafios que são globais, mas exigem ações locais (e pontuais):

 

“Perceber que cada um tem seu papel e sua responsabilidade nessa transformação é fundamental. A mudança das estratégias empresariais é crucial e nós, como líderes empresariais, somos parte do problema, mas, juntos, somos também a solução”, destacou Carlo Pereira, diretor executivo do Pacto Global da ONU.

 

Ele acredita ainda que: “A estratégia, por meio dos Movimentos, vai acelerar essa transição”. Então, cada um desses Movimentos trata de questões relacionadas à saúde, direitos humanos, clima, acesso à água e combate à corrupção gerando uma preciosa oportunidade para que possamos abrir um espaço de discussão – e de ação.

 

O Mente em Foco visa promover Saúde e Bem-estar (ODS 3) dentro de empresas/organizações brasileiras, trazendo para o centro das decisões a pauta da saúde mental. Isso significa estabelecer ações concretas e de suporte aos seus colaboradores de modo a criar um ambiente de trabalho saudável.

 

Para Igualdade de Gênero (ODS 5), o Movimento Elas Lideram 2030 busca ajudar as empresas a assumirem e atingirem metas concretas de ter pelo menos 50% de mulheres em cargos de alta liderança. O objetivo final é ter mais de 1,5 mil empresas comprometidas, promover 11 mil mulheres para esses cargos até 2030 e ter pelo menos 150 lideranças de alto nível engajadas com esta ambição.

 

A questão da água, tão debatida no Brasil nos últimos anos, também ganha um Movimento, fortalecendo assim o ODS 6 (Água Potável e Saneamento). O +Água é uma iniciativa para aceleração da universalização do saneamento e segurança hídrica do Brasil e tem a ambição de impactar a vida de mais de 100 milhões de pessoas.

 

Outro convite é para o Movimento Salário Digno, que tem a ambição de garantir 100% de salário digno a funcionários e funcionárias, incluindo operações, contratados(as), e/ou terceirizados(as). Deste modo, garantimos dignidade e um padrão de vida decente para famílias e comunidades na busca pelo ODS 8 (Trabalho decente e crescimento econômico).

 

Para a Redução das Desigualdades (ODS 10), o Movimento Raça buscará promover cerca de 15 mil pessoas negras, indígenas, quilombolas ou pertencentes a outro grupo étnico minoritário em cargos de liderança até 2030, pelo menos 20 mil pessoas negras capacitadas, com mais de 1,5 mil empresas comprometidas no Brasil.

 

Outro tema relevante passa pelo combate à corrupção que é tratado no Movimento Transparência 100%. A proposta é desenvolver instituições eficazes, responsáveis e transparentes em todos os níveis, de modo a encorajar e capacitar para que consigam ir além das obrigações legais, dentro do ODS 16 (Paz, Justiça e Instituições Eficazes).

 

Nosso maior desafio, na verdade, é sair do discurso e ir para a prática, sabendo que o setor privado tem papel decisivo na transformação dos sistemas sociais e econômicos. A partir desse engajamento, queremos gerar consciência além dos negócios, por meio de decisões conectadas ao propósito e aos valores da empresa.

 

A conclusão é que não podemos falar em “perenidade” sem nos abrirmos para respostas que nos permitam – e às futuras gerações – de existir no futuro. Ouça o tique-taque da natureza impondo que a mudança seja hoje. É uma longa jornada adotar a Agenda 2030, além de uma declaração global de interdependência de todos nós! Avante!

 

Cristhiane Brandão – Conselheira de Administração em Formação, Consultora em Governança & Especialista em Empresas Familiares. Sócia fundadora da Brandão Governança, Conexão e Pessoas