Integridade como pilar da Governança e combate à corrupção

A Avenida Faria Lima é um dos símbolos do nosso país: negócios pulsando, inovação acontecendo, poder circulando. Mas o Brasil tem visto essa imagem ser manchada repetidas vezes por escândalos de corrupção e má gestão. A Operação Carbono Oculto foi mais um exemplo recente, mostrando que nem mesmo os setores mais “blindados” estão livres quando falta governança.

De fintechs a bancos tradicionais, as investigações revelaram falhas em compliance, auditoria e governança. O recado é direto: governança não é luxo, não é moda, é condição de sobrevivência. Sem ela, a credibilidade e a confiança se desfazem rápido.

Não faltam exemplos: Americanas S.A. (2023), um rombo contábil de R$ 20 bilhões, uma das maiores perdas de valor da história da B3; a Lava Jato (2014), com esquemas bilionários de corrupção envolvendo grandes empresas e políticos; e a fraude do INSS (2025), em que houve cerca de R$ 6 bilhões desviados de aposentados e pensionistas.

Tudo isso ajuda a explicar a pior nota do Brasil no Índice de Percepção da Corrupção em 2024: 34 pontos, 107ª posição mundial. Um sinal de alerta que não pode ser ignorado. E se alguém ainda acha que falar de integridade é “detalhe”, vale lembrar: investidores, consumidores e reguladores não perdoam incoerência.

O próprio IBGC, na 6ª edição do seu Código de Melhores Práticas (2023), deixou claro que integridade agora é um dos cinco pilares centrais da governança. É cultura ética, coerência entre discurso e prática, lealdade às pessoas, ao negócio e à sociedade.

É verdade que muitas empresas já avançaram. Pesquisas mostram que 71% delas adotaram práticas ESG mas também revelam um risco: muitos líderes já começam a questionar a relevância do tema. O desafio é sair do discurso e mostrar consistência.

Bons exemplos não faltam, entre elas, a Suzano, que alia produção de papel e celulose a conservação de corredores ecológicos; e a Amaggi, com sede em Mato Grosso, que garante que garante rastreabilidade e compromissos de desmatamento zero no agronegócio. Essas empresas provam que governança séria, sustentabilidade e competitividade andam juntas.

Em resumo, não há governança sem integridade. Escândalos custam caro demais em dinheiro, em reputação e em confiança. Já a ética protege ativos, fortalece equipes, atrai talentos, estimula inovação e constrói relações duradouras.

Como diz um provérbio grego: “Quando um homem planta árvores sob cuja sombra sabe que nunca vai se sentar, ele começa a entender o sentido da vida.” Governança é isso, pensar no hoje com olhos no amanhã. Em um país onde a corrupção insiste em aparecer nas manchetes, integridade não é só escolha, é imperativo. O convite que faço é simples: vamos viver essa jornada juntos.

Cristhiane Brandão, Conselheira de Administração, Consultora em Governança para Empresas Familiares e Vice-Coordenadora Geral do Núcleo Centro-Oeste do IBGC.

Ética e propósito são destaques do novo Código das Melhores Práticas de Governança

Recentemente, tivemos uma importante atualização do Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa que contou com benchmarking internacional de outros 15 códigos ao redor do mundo, bem como etapas de audiência restrita e pública e sessões especiais no Congresso IBGC do ano passado.

 

Hoje, o Código adotado é principiológico, ou seja, traz um conjunto de princípios que regem a atividade de governança, além de condensar um documento moderno e inspirador. Em relação à 5ª edição (2015), a atual versão destaca a ética e o propósito como fundamentos.

 

Outros pontos importantes revisados se referem a uma nova definição de governança e ao aperfeiçoamento de seus princípios que passam a ser: integridade (novo princípio); transparência, equidade, responsabilização (antes prestação de contas) e sustentabilidade (antes responsabilidade corporativa).

 

Como representante do Capítulo Brasília Centro-Oeste, acompanhei o processo de atualização e posso afirmar que a nova edição busca se aproximar ainda mais de diferentes organizações, de acordo com a maturidade em relação à governança, tipo de organização, arcabouço regulatório aplicável, dentre outros aspectos, valendo para todos os stakeholders e não só para investidores e acionistas.

 

Também se vislumbrou que seja um Código ‘inclusivo’ para que se aproxime de diferentes organizações, a exemplo de associações, cooperativas e startups. Já na Governança Familiar, os códigos têm importantes princípios para nortear os negócios da família e dos sócios.

 

Quero reforçar alguns pontos que considero importantes, entre eles, a integridade:  Como empresa familiar como temos difundido a cultura ética? Como nossas decisões têm sido tomadas? Como a influência de conflitos de interesses tem sido controlada ao que é melhor para o negócio e para a família? O que é melhor para mim? Como temos sido coerentes com nossos discursos e ações? Temos sido leais à empresa e ao negócio? Como temos cuidado das partes interessadas (sócios, comunidade, funcionários, fornecedores)?

 

Sobre a transparência, ela favorece a confiança e melhora o relacionamento com todas as partes interessadas. Então, a reflexão é sobre como temos disponibilizado informações verdadeiras, tempestivas, coerentes, claras e relevantes? Vamos além da situação econômico-financeira? Como questões ambientais, sociais e de governança (sucessão, riscos, futuro do negócio) estão sendo construídas e disseminadas?

 

Na equidade, temos tratado de maneira justa todos os sócios e demais partes interessadas? Conhecemos direitos, deveres, necessidades, expectativas e interesses? Escutamos? Informamos? Quais os rituais e instrumentos de apoio e os meios para que isso aconteça? Vamos além: Como promover justiça, respeito, diversidade, inclusão, pluralismo sem a equidade?

 

A responsabilização vem nos indagar sobre diligência e independência, sobre assumir as consequências (riscos e impactos) e gerar valor a longo prazo. Aqui, o principal aspecto em sociedades em geral e, especialmente nas empresas familiares, é a prestação de contas, pois isso implica em se submeter, em ser avaliado e responsabilizado. É como uma metáfora de que o jogo da vida real é para valer e tem consequências…

 

Para fechar, a sustentabilidade visa fortalecer o protagonismo e a responsabilidade perante a sociedade. Temos planejado de forma a perenizar o negócio familiar? Estamos criando que tipo de impactos e a quem? Como podemos mitigar isso e transformar nossa relação com a sociedade e a natureza?

 

Infelizmente, nos últimos dois anos, algumas empresas têm demonstrado estar na contramão de tudo que buscamos, entre elas, mais recentemente a 123 Milhas gerou prejuízos a milhares de brasileiros que perderam não só o dinheiro investido, mas o sonho adquirido com pacotes de viagens. Toda empresa tem responsabilidades que vão além do próprio lucro, estamos preparados para lidar com isso? Compreendemos que a relação de interdependência é soberana? E que o modelo de crescimento a qualquer custo na verdade tem um grande custo? É justamente nesse ponto que é importante resgatar o propósito das organizações…

 

Cristhiane Brandão, Conselheira de Administração, Consultora em Governança para Empresas Familiares e Coordenadora do Capítulo Brasília/Centro Oeste do IBGC