Educar para empreender é perpetuar o legado

Empreender é correr riscos. É ter coragem para inovar e responsabilidade com todos que dependem da gente, como colaboradores, fornecedores, clientes, comunidade e planeta. É um ato de compromisso. E, quando falamos de famílias empresárias, esse compromisso precisa atravessar gerações. A educação empreendedora é o que mantém acesa a chama que dá vida ao negócio.

 

Muitas famílias constroem impérios, mas poucas conseguem mantê-los com o mesmo vigor nas gerações seguintes. Isso acontece porque empreender não é um talento que se herda, é uma competência que se aprende. Ensinar a empreender é tão importante quanto ensinar a administrar. A nova geração precisa entender o valor do risco, a beleza da criação e o peso da responsabilidade. E, mais do que isso, precisa ser estimulada a pensar com autonomia e a agir com propósito.

 

Pesquisas e experiências em governança familiar mostram que a partir da  segunda geração, os membros da família tendem a priorizar eficiência e controle, enquanto o espírito empreendedor se dilui. A ausência de práticas formais de educação empreendedora faz com que o negócio evolua em gestão, mas não em criação. É por isso que o empreendedorismo precisa ser tratado como competência estratégica, ensinada e cultivada ao longo do tempo.

 

Portanto, educação empreendedora não é uma disciplina, é um processo contínuo. Começa com valores – ética, autonomia, curiosidade, coragem para tentar – e se fortalece quando as gerações conversam. Quando a fundadora compartilha aprendizados e a herdeira traz novas ideias, nasce um diálogo que renova o propósito. Esse encontro de experiências, se bem conduzido, forma uma geração de líderes conscientes e preparados para inovar.

 

O grupo Votorantim, um dos mais longevos do Brasil, entendeu isso há décadas. Criou a Academia Votorantim, um programa de formação que prepara lideranças e herdeiros para pensar o futuro com visão empreendedora e compromisso com a inovação. Lá, os valores da família se unem à governança e à estratégia, garantindo que o espírito do fundador não se perca, apenas se transforme.

 

No cenário internacional, o grupo LVMH (dono das marcas Louis Vuitton, Dior, Tiffany & Co.), liderado pela família Arnault, trilhou o mesmo caminho. Criou o Institut des Métiers d’Excellence, uma escola corporativa voltada para formar jovens talentos e futuros líderes das marcas do grupo em áreas como gestão, design e artesanato de luxo. Desde 2014, mais de 3 mil aprendizes foram formados, preservando a cultura de excelência e renovando o DNA inovador da empresa.

 

Esses exemplos mostram que famílias que educam para empreender não apenas protegem o patrimônio garantem a perenidade do propósito. Legado não é o que se deixa, é o que se ensina. E o maior legado de uma família empresária é formar sucessores capazes de criar, decidir e se reinventar.

 

Apenas 30% das empresas familiares chegam à segunda geração e menos de 5% alcançam a terceira (PwC, 2023). Isso reforça a urgência de preparar as novas lideranças. Governança, sucessão e educação empreendedora são pilares complementares: um sistema de sustentação que assegura continuidade, longevidade e inovação.

 

Em um estado como Mato Grosso, o maior produtor de grãos do Brasil e um dos grandes polos do agronegócio mundial, essa reflexão é estratégica. A força do agro não está apenas na produtividade e sim na capacidade de se reinventar, o que passa pela formação das novas gerações que herdarão – e transformarão – os negócios familiares da cadeia produtiva. O campo já aprendeu a produzir com eficiência e sustentabilidade, agora precisa investir com a mesma energia em educação empreendedora, para garantir que o legado de hoje continue vivo amanhã.

 

Educar herdeiros é educar para o tempo. É transformar a continuidade em movimento. É fazer do aprendizado o fio que costura passado, presente e futuro. Que cada família empresária mato-grossense olhe para sua história e se pergunte: estamos preparando nossos filhos e netos para manter viva a chama que acendeu o nosso negócio? A resposta a essa pergunta definirá o amanhã.

 

E esse é o convite: vamos caminhar juntos nessa construção. Porque legado, inovação e sustentabilidade só fazem sentido quando andam lado a lado, com propósito, preparo e visão de futuro.

 

Cristhiane Brandão, Conselheira de Administração, Consultora em Governança para Empresas Familiares, Mentora em Negócios Familiares e Vice-Coordenadora Geral do Núcleo Centro-Oeste do IBGC.

Sucessão em Empresas Familiares: ato de amor e compromisso

A sucessão em empresas familiares é, talvez, um dos capítulos mais sensíveis e decisivos da história de qualquer negócio. Não é apenas sobre quem assume o comando, mas sobre como o legado é preservado, reinventado e projetado para o futuro.

Os números nos lembram da urgência desse tema: apenas cerca de 30% das empresas familiares chegam à segunda geração, e menos de 5% alcançam a terceira. Esses dados, mais do que estatísticas, são alertas. Eles nos dizem que a sucessão não é um evento, é um processo contínuo de preparação, diálogo e construção coletiva.

E é aqui que as Governanças Corporativa e Familiar se tornam o verdadeiro alicerce da perenidade. Elas organizam o que muitas vezes nasce do afeto e da intuição empreendedora, criando pontes entre gerações e transformando uma história familiar em uma instituição duradoura.

O modelo dos Três Círculos, proposto por John A. Davis, da Harvard Business School, é uma bússola para quem deseja compreender as dinâmicas da empresa familiar. Ele nos mostra que cada decisão precisa harmonizar três dimensões: família, propriedade e gestão.

O segredo está no equilíbrio. Empresas familiares que prosperam são aquelas que entendem que, a cada nova geração, é preciso renovar o olhar, abrir espaço para o novo e inspirar a continuidade com propósito.

Governança não é sobre engessar; é sobre clarear caminhos e reduzir conflitos. Ela transforma o “jeito de fazer da família” em práticas sustentáveis, em que mérito e competência guiam as decisões — e não o sobrenome.

As estruturas mais comuns e eficazes nesse processo incluem:

  1. Acordo de Sócios/Familiar – documento vivo que traduz o que a família acredita: suas regras, seus limites e o que deseja construir em conjunto.
  2. Conselho de Família – o espaço onde valores, educação das novas gerações e legado são tratados com a seriedade que merecem.
  3. Conselho de Sócios – garante que a voz dos proprietários seja ouvida e que as decisões estratégicas respeitem a visão de longo prazo da família.
  4. Conselho de Administração (ou Consultivo) – o coração estratégico que une experiência, independência e inovação.

Esses fóruns criam um ambiente em que o diálogo substitui o improviso e a confiança dá lugar à insegurança.  Inclusive o gigante Jorge Gerdau, presente no último Congresso de Governança do IBGC, disse: “Aprenda a dialogar com tudo e com todos. A partir daí, vocês encontrarão o sucesso”, citando uma das seis chaves da longevidade empresarial.

A “conspiração do silêncio” e a importância de começar cedo… Como alerta Ivan Lansberg, muitos processos de sucessão travam por uma espécie de “conspiração do silêncio”: fundadores, sucessores e familiares evitam o tema por medo de conflitos ou por apego emocional.

Mas sucessão não é perda — é continuidade com consciência. É um exercício de maturidade que se fortalece quando visto como um processo de desenvolvimento familiar e organizacional, e não apenas como um ato jurídico.

A preparação do sucessor envolve três pilares:

  • Experiência externa, para ampliar visão e credibilidade.
  • Formação contínua, para desenvolver liderança e repertório.
  • Mentoria estruturada, em que o fundador transfere conhecimento e confiança gradualmente.

O Professor Alfredo De Massis nos lembra que o sucesso da transição depende de dois elementos: vontade e habilidade. Ter competência técnica é essencial, mas sem o desejo genuíno de continuar o legado, o propósito se perde.

Já Peter Vogel, do IMD, acrescenta uma visão encantadora: envolver a nova geração não apenas na gestão do negócio, mas também em projetos de impacto social, inovação e filantropia. Quando o “porquê” da família se conecta ao “para quê” do negócio, nasce uma força capaz de atravessar décadas.

Talvez o maior desafio emocional esteja em soltar o poder. O fundador, muitas vezes, é o próprio símbolo da empresa. Separar-se desse papel exige coragem e amor.

Mas há formas honrosas e produtivas de seguir contribuindo: assumir a presidência do Conselho, atuar como mentor estratégico, ou simplesmente ser guardião dos valores. Assim, o fundador continua presente — não mais no comando, mas na inspiração.

A sucessão é, em essência, um ato de amor — pela família, pela história e pelo futuro. Quando conduzida sob a luz da Governança, ela transforma um momento de risco em uma oportunidade rara: perpetuar o legado com harmonia, profissionalismo e visão.

Porque, no fim das contas, o que realmente importa é que o negócio siga forte, humano e relevante, carregando consigo a melhor herança possível: a sabedoria de quem soube passar o bastão no tempo certo.

Artigo escrito por Cristhiane Brandão, Conselheira de Administração, Mentora e Consultora em Governança para Empresas Familiares, Vice Coordenadora Geral do Núcleo Centro-Oeste do IBGC. Especialmente para o Grupo Conselheiras