Governança no Agro: pilar para a segurança alimentar e climática

Participar do Global Agribusiness Festival (GAFFFF) 2025, um megaevento internacional que reuniu os principais segmentos do agronegócio, foi uma experiência inesquecível. Além de fortalecer conexões e abrir espaço para debates estratégicos, reforçou uma convicção que já tínhamos: o protagonismo do agronegócio brasileiro como pilar mundial da segurança alimentar e climática.

Os números apresentados no evento são no mínimo interessantes. O mundo terá 2,4 bilhões de habitantes a mais até 2050, saltando dos atuais 6,8 bilhões para 9,2 bilhões. Paralelamente, a expectativa de vida aumentará para 75 anos. Surge então um impasse: como atender a demanda crescente por alimentos sem comprometer o equilíbrio socioambiental?

A resposta está na produtividade com responsabilidade e na governança, que sustenta todo esse processo. Nesse cenário, o Brasil se destaca como um dos poucos países capazes de garantir alimentos em grande volume e alta qualidade, sem precisar expandir suas fronteiras agrícolas.

Durante o evento, a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) apresentou soluções inovadoras para atender ao aumento do consumo mundial de carne bovina, especialmente na América do Norte e na Ásia. Entre elas estão os sistemas integrados de Lavoura-Pecuária (ILP) e Lavoura-Floresta (ILF), que permitem até três safras por ano em algumas regiões, com expectativa de alcançar 35 milhões de hectares integrados até 2030.

Esse modelo promove benefícios expressivos, tais como eficiência no uso da terra aumentada em até 6 vezes; qualidade do solo melhorada em 74%; e fortalecimento da biodiversidade, com ganhos de 41%. Além disso, o Plano ABC+, do governo federal, projeta uma mitigação de 1,1 bilhão de toneladas de CO₂ equivalente até 2030 com ações que incluem a recuperação de 30 milhões de hectares de pastagens degradadas; expansão de florestas plantadas; e o uso de bioinsumos e manejo sustentável de resíduos.

Atualmente, o rebanho bovino brasileiro soma 238 milhões de cabeças, com 65 milhões de matrizes aptas à reprodução. No entanto, 53% dessas matrizes ainda não utilizam genética de qualidade, representando um potencial inexplorado. O avanço do setor exige planejamento estratégico, inovação e rastreabilidade, garantindo que o agronegócio brasileiro cumpra seu papel sem comprometer recursos naturais.

Neste contexto, a governança se torna essencial, já que organiza decisões, conecta sustentabilidade à visão empresarial e garante coerência entre discurso e ação. No mês em que celebramos o Dia Mundial do Meio Ambiente, é fundamental reforçar: sem governança, não há transição justa nem prosperidade duradoura.

O impacto das mudanças climáticas sobre a economia é real e urgente. Reportagens recentes destacam como eventos extremos estão afetando o país. A Folha de S. Paulo (setembro de 2024) destacou: “Crise climática afeta logística do país, e empresas relatam prejuízo milionário”; já a Fecomércio-SP (abril de 2025): “Seis em cada dez empresas paulistas sentem impactos climáticos.”

A seca severa de 2024 foi a pior desde 1982, afetando 60% das cidades do estado de São Paulo. Em outubro do mesmo ano, chuvas intensas deixaram a capital paulista sem energia por vários dias, resultando em um prejuízo de R$ 2 bilhões para as empresas.
Mato Grosso também enfrenta desafios. No Pantanal, a estiagem e a baixa umidade ampliam o risco de incêndios florestais, afetando biodiversidade, economia e qualidade de vida da população. Cuiabá, por sua vez, registrou temperaturas recordes de 43°C em setembro de 2024, figurando entre as cidades mais quentes do mundo.

A pesquisadora Ana Paula Paes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), alertou: “Se nada for feito, entre 2030 e 2050, algumas regiões do Centro-Oeste podem se tornar inabitáveis. O clima está se deteriorando rapidamente, criando condições extremas.”

O agravamento dos eventos climáticos reforça que esta não é mais uma pauta opcional, mas uma exigência de sobrevivência econômica, social e ambiental. Os riscos concretos para os negócios incluem: perdas operacionais e ruptura de cadeias logísticas; pressão regulatória e impactos na reputação corporativa.

Neste cenário, empresas familiares desempenham um papel estratégico. Seu propósito, legado e cultura empresarial podem ser direcionados para um impacto positivo. Quando uma família empresária alinha seu legado à sustentabilidade, o negócio cresce e fortalece o ambiente ao redor, construindo um futuro próspero para todos!

Cristhiane Brandão, Conselheira de Administração, Consultora em Governança para Empresas Familiares e Vice-Coordenadora Geral do Núcleo Centro-Oeste do IBGC.

China: Uma Imersão que Transformou Minha Visão de Mundo e Negócios

Sabe aquele sonho antigo que você guarda com carinho? A China era um desses para mim. Meu irmão, anos atrás, voltou de lá com histórias que pareciam de outro planeta, e a sementinha da curiosidade foi plantada. Quando surgiu a oportunidade de um módulo internacional na China durante a escola de negócios, nem pensei duas vezes. Mergulhei no processo, estudei, mas a pandemia, com seus planos disruptivos, mudou o destino. A China ficou para depois…

Mas como dizem, tudo tem seu tempo. E o meu chegou! Na última quinzena de maio, embarquei na FFXPERIENCE ASIA 2025, uma missão sensacional que me levou ao coração da Ásia. Fui parte de um grupo de executivos, muitos dos quais estavam tendo seu primeiro contato com esse gigante asiático.

Nossa jornada nos levou por 5 cidades vibrantes: começamos em Dubai, seguida por Xangai, Hangzhou, Shenzhen e finalizamos em Hong Kong.

O que mais me encantou nessa missão? A curadoria impecável da Mariana Carvalho , Natália Schifino , Gustavo Schifino e Tiago Pessoa de Mello (todos da FFX Group). O cuidado atencioso com o grupo era notável, e a imersão ia muito além do mundo dos negócios. A cultura local nos foi apresentada a cada passo, um verdadeiro bálsamo que me fez refletir o quanto eu estava enviesada em relação à China.

Meus Maiores Aprendizados na China

Algumas das lições mais impactantes que trouxe na bagagem:

  • Estrategistas Silenciosos: Eles são calados, como bons estrategistas. Primeiro fazem, depois contam. Uma abordagem que nos lembra a importância da execução antes da divulgação.
  • Vendedores Exímios: Fiquei impressionada com a estrutura de vendas. Todas as empresas que visitamos possuíam auditórios, apresentações e equipes dedicadas a receber visitantes, com uma comunicação visual totalmente integrada. Um show de profissionalismo!
  • Agilidade Incrível: A agilidade chinesa é algo de outro nível. Ao desenvolver, ao multiplicar e até mesmo nas respostas aos feedbacks. Na visita à Huawei, que para mim foi uma das mais impressionantes, o grupo questionou sobre cases concretos. No dia seguinte, eles organizaram uma apresentação com três cases, os clientes presencialmente e um almoço impecável para brasileiros (nosso churrasco feito por um mestre gaúcho!).
  • Planejadores por Natureza: Eles sabem exatamente onde pisam e onde querem chegar. Para cada negócio, para cada classificação de cidade, para cada investimento, há um “porquê” muito bem alicerçado.
  • Apoio Governamental ao Empreendedorismo: Conhecemos três brasileiros que estão investindo e empreendendo na China. Ouvimos deles sobre o apoio do governo em fazer os negócios darem certo. Um deles contou que em um mês recebeu a visita e a pergunta “como podemos te apoiar?” (Pensei: “Brazilian Dreams”!). Essa ação me surpreendeu muito, visto que a visão ocidental sobre o governo chinês é de um super controle.

Tendências e Inovações que Marcam o Futuro

A China é um caldeirão de tendências, e alguns “highlights” me chamaram a atenção:

  • Shoppings como Centros de Experiência: Definitivamente, shoppings devem ser lugares de entretenimento e experiências. Focar apenas em produto é decretar a morte. Fomos recebidos pelo fundador e executivo do Chong Bang Group, que destacou: “na China, o varejo não é mais sobre vender mercadorias”. Com 95% dos consumidores comprando online, espaços físicos precisam oferecer algo que o digital não entrega facilmente: experiências únicas e memoráveis. Por isso, o Chong Bang Group chama seu projeto de “Life Hub” (centro da vida) em vez de shopping center.
  • IA Totalmente Inserida: A Inteligência Artificial não é apenas uma tecnologia; é uma extensão natural das capacidades humanas, substituindo funções cognitivas e físicas. Todas as empresas que visitamos usam IA.
  • Disrupções em Múltiplos Níveis: Todos os negócios visitados estão atentos e com projetos concretos de inovação, já olhando para a mudança geracional. Visitamos o X27 LIVE COMMERCE MALL, o primeiro shopping center do mundo dedicado exclusivamente ao live commerce. Ver uma infraestrutura de primeira, “vazia”, é chocante para nós. Mas só no primeiro semestre de 2024, registrou vendas de mais de 4,6 bilhões de yuans (aproximadamente R$ 3,6 bilhões) e projeta encerrar o ano com R$ 8 bilhões em vendas! Superapps como o WeChat são a chave para integrar serviços digitais e aumentar a receita e a fidelidade do cliente. Saí do Brasil intrigada por ter que baixar aplicativos chineses e voltei fascinada pela facilidade de ter tudo em um só lugar e todo o comércio integrado a esses apps. Na Xpeng, testemunhamos a impressionante linha de montagem de carros elétricos e a evolução dos carros voadores, já em produção para entrega em 2026. Como um grande amigo que já havia viajado para lá observou, eles estão dominando a indústria da tecnologia. Todas as empresas chinesas de tecnologia estão à frente e investem muito, inclusive em infraestrutura como estratégia para atrair mão de obra global. O Huawei Ox Horn Campus, o “Parque Europeu” da Huawei, foi concebido para promover um ambiente de trabalho inovador e inspirador, replicando a riqueza cultural e arquitetônica da Europa. Dividido em 12 zonas, cada uma com arquitetura de cidades europeias e um trem para ligá-las. Para mim, a visita mais impressionante!

Como profissional que atua com empresas familiares, pude ver de perto como a nova dinâmica chinesa está moldando os negócios, inclusive familiares, no mundo. Precisamos nos conectar com isso imediatamente.

Hoje, Ricardo Amorim fez uma publicação que ressoa perfeitamente com o que vi: “Com tarifas americanas pressionando México, China e Canadá, o Brasil pode assumir o papel de nova ‘maquila’ latino-americana — montando produtos localmente para exportar aos EUA. Também temos a chance de fortalecer nossa posição como fornecedor global de energia, que ganha ainda mais relevância estratégica em tempos de conflitos crescentes entre países.” E ele conclui: “…Cabe a nós não desperdiçarmos essa oportunidade”.

Ainda estou reverberando tudo o que vi e aprendi nessa missão!

Muito obrigada, FFX! E um agradecimento especial aos amigos do grupo. Em 15 dias juntos, nos aproximamos muito! Em particular, me reconectei com meu grande amigo Alex BX Pinto quero ressaltar a presença feminina: fomos 9 representantes de regiões e segmentos distintos, explorando, aprendendo e movimentando!

Valeu!

Cristhiane BrandãoConselheira de Administração, Consultora em Governança para Empresas Familiares e Vice-Coordenadora Geral do Núcleo Centro-Oeste do IBGC.